Vocês, assim como eu, têm um poder nas mãos. Somos mais de 40 milhões de eleitores que não se dobraram aos desvarios da turba do pacto PT-PSOL, tampouco foram quebrados pelos desvios de conduta dos ditos “Deus, pátria e família”. Nós temos uma responsabilidade: a de continuar na mesma posição que nos coube no primeiro turno. A de não entregar os nossos pensamentos, a de não sujar a nossa consciência, a de não fecharmos os olhos para ambas as patifarias. A posição de isenção e nulidade que nos cabe. Nós sabemos que não é e jamais será nossa a responsabilidade do segundo turno das eleições ter redundado, pela 3ª vez seguida, na disputa entre dois lados de uma mesma moeda chamada corrupção.
À esquerda, está seu maior representante, o atual presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, um carreirista há mais de 40 anos na política:
- que esteve presente na Câmara dos Deputados por dois mandatos seguidos, em um deles sendo co-signatário da Constituição apesar de não aceitar o seu texto final;
- que sempre, em suas campanhas eleitorais, se portou como paladino-mor da esquerda brasileira mesmo negando ser de esquerda recentemente;
- que perdeu a eleição de 1994 por ter se negado a aceitar que o Plano Real, criado pela equipe de Fernando Henrique Cardoso (futuramente seu apoiador), conseguiu acabar com a hiperinflação que era um tormento para toda a nação, mesmo tendo passado mais de três anos percorrendo o país à la Renan Santos;
- que só passou a ser moderado de fato quando se aliou a Brizola em 1998, afastando o PSTU, a primeira grande dissidência do PT, de sua fortaleza, embora tendo sido derrotado novamente por FHC, e só conseguiu ganhar a presidência da República por ter negociado apoios com partidos do Centrão como o PL, atualmente seu inimigo;
- que fechou os olhos para o até então maior escândalo de corrupção da história política recente do país, o Mensalão, o qual envolvia nomes históricos do partido, alguns até bem próximos a ele, como José Dirceu, por exemplo;
- que negou rotundamente que o triplex do Guarujá era seu, mesmo com o Ministério Público Federal encontrando provas contundentes contra si, fazendo com que Sergio Moro o prendesse e, junto a Deltan Dallagnol, se tornasse inimigo público nº 1 dos petistas, os quais ignoraram solenemente os demais membros da Lava-Jato e disseram que Lula era inocente aos quatro ventos;
- que conseguiu, mesmo preso, registrar uma campanha eleitoral em seu nome, embora não podendo se candidatar e deixando seu poste, Fernando Haddad, como seu testa-de-ferro contra o extremista Jair Bolsonaro;
- que foi descondenado pelo Supremo Tribunal Federal, o qual mandou que a investigação conta si começasse do zero, embora Edson Fachin não dissesse publicamente que Lula é inocente, algo que os petistas juram de pé junto que Lula seja até hoje;
- que só foi reeleito para um 3º mandato nas eleições de 2022 porque, dentre outros fatores, o desgoverno de Jair foi marcado pela péssima gestão sanitária deste em meio à pandemia;
- que não consegue renovar seus argumentos pra se manter no poder e, à diferença de seu rival, que nada podia fazer com a máquina pública nas eleições passadas, usa de todos os meios, constitucionais ou não, para conseguir uma reeleição cada vez mais distante, nem que pra isso se utilize dos mesmos métodos de fake news contra seu agora único oponente.
Do outro lado, dizendo representar uma direita que jamais representou, vide que o histórico familiar não o ajuda, está o senador Flávio Bolsonaro, representante escolhido às pressas pelo PL para disputar contra Lula, cujo peso do sobrenome é a única coisa que explica o porquê de estar no 2º turno, sendo:
- que foi acusado da prática de rachadinhas enquanto deputado estadual na ALERJ (da qual também foi descondenado, não inocentado);
- que, assim como seu pai, Jair, riu das vítimas da pandemia;
- que tem envolvimento comprovado com milicianos como o falecido Adriano da Nóbrega, inclusive querendo legalizar milícias sendo integrante da Comissão de Direitos Humanos na ALERJ;
- que enterrou a CPI da Lava-Toga para blindar integrantes do STF, instituição à qual está ligado por ter negócios com Gilmar Mendes, por exemplo.
Mas, para além do fisiologismo, do clientelismo, do populismo, da corrupção e da cara-de-pau exacerbada que ambos têm, o que os torna tão iguais a ponto de somente os fanáticos de ambos enxergarem alguma diferença ilógica entre eles?
1º: o uso eleitoreiro da fé alheia. Lula e Flávio pareciam ser diametralmente opostos neste aspecto. Enquanto Lula se apresentava como um defensor e adepto das religiões de matriz africana, Flávio se comportava como um crente fervoroso (crente não é cristão, frise-se).
Só que a campanha de 2026 apresentou dois lados abertamente diferentes. Enquanto Flávio, apesar de não cumprir um só requisito da palavra de Deus, permaneceu sob o jugo de Silas Malafaia, seu maior defensor no campo espiritual, os fanáticos de Lula resolveram jogar do mesmo jogo que os fanáticos bolsonaristas e inventaram que, se Flávio chegasse ao poder, retiraria “Nossa Senhora Aparecida” do posto de padroeira do Brasil.
Ora, esta fake news chegou aos ouvidos da GloboNews, emissora defensora ferrenha de Lula, a qual tratou de desmenti-la na Edição da Meia-Noite. No entanto, em questão de segundos, a fake news foi endossada por diversos apoiadores de Lula. Um deles, o pseudohumorista Antonio Tabet, sócio-fundador do grupo Porta dos Fundos, publicou, em 30 de setembro, ou seja, a quatro dias do 1º turno, um tweet dizendo que “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora (…)”. Um tweet com o único intuito de atacar “A família miliciana”, que outra não é senão a máfia Bolsonaro.
Todo mundo com dois ou mais neurônios ativos sabe que isto é fake news, afinal, nem Jair Bolsonaro, que não vale o pouco soldo que ganhava no Exército, fez uma dessas nem quando deputado e nem mesmo quando presidente. Embora Victório Galli, ex-deputado do MDB de Temer e braço-direito de Jair, tenha proposto isso em 2007, o projeto de lei foi arquivado em 2008 e nenhum outro desgoverno, nem mesmo o do próprio Temer e muito menos o de Jair, o tirou do fosso do qual não deverá sair tão cedo. Sancionar um projeto de lei destes seria violar a laicidade do Estado, salvaguardada pela Constituição (a qual tem sido violada pelo STF por diversas ocasiões, diga-se de passagem).
No entanto, a fake news de Tabet se espalhou como praga. O TSE a havia barrado a princípio, mas em questão de horas a liberou novamente e ela viralizou exatamente como Tabet planejava. Até nota do escritório de advocacia que o representa ele publicou e enviou à imprensa. Só que eu disse a Tabet, em 02 de outubro, que “a santa vai lhe dar um coro no domingo”. Pois bem, terminada a apuração, o resultado em Aparecida (SP) foi este:
E eu não tive outra alternativa a não ser jogar a verdade na cara de Tabet.
O resultado? Ele não apenas negou a verdade como Pedro negou a Cristo 3 vezes (lembrando que o Porta dos Fundos só faz especial de Natal pra zombar mesmo com os evangélicos), como também me bloqueou. Então, quer dizer que só é fake news quando é o outro lado, é isso?
2º: a concentração digital. Lula e Flávio preferiram concentrar suas atenções nas redes sociais e depositar seus discursos nas ruas do que participar de debates no 1º turno. Afinal, o que eles realmente queriam era fazer a vontade de seus fanáticos e debater entre si no 2º turno. Tanto é verdade que o único debate que aconteceu foi o da Band. A campanha de Lula, desde o começo, preferiu se esquivar de candidatos como Ronaldo Caiado, Augusto Cury e do próprio Renan Santos porque sabia que o atual presidente seria confrontado pelas mesmas coisas que a sabatina do Jornal Nacional o confrontara. Além disso, para Flávio, não faria sentido participar do debate sabendo que o sujeito que ele realmente queria enfrentar não estaria presente. A fuga dos dois, somada às decisões monocráticas da justiça em Brasília na reta final da campanha, fizeram com que SBT e Globo cancelassem seus debates (esta última na última hora).
O resultado? A aquisição de novos bovinos, aglutinando-os aos já existentes em seus currais, levaram ambos a atingirem mais de 104 milhões de eleitores no 1º turno, aqui e lá fora, numa das disputas mais acirradas da história das eleições modernas no país. Some-se a isso um congresso recheado de bolsonaristas, alguns mais radicais, outros nem tanto, que podem tanto ajudar Flávio quanto prejudicar Lula. De qualquer jeito…
3º (e o mais grave): Daniel Vorcaro. O homem do ano, o cara que realmente decidiu estas eleições. Aliás, o maior vencedor destas eleições. É inequívoca a ligação de Vorcaro com Lula e Flávio. Com Flávio, a ligação a Vorcaro se dá pelas múltiplas mensagens de WhatsApp, a grande maioria delas já divulgada na imprensa. Flávio, assim como o cantor Gusttavo Lima e o presidente da Câmara, Hugo Motta, chamou Vorcaro de “meu irmão”. Foi pelas mensagens que Vorcaro viabilizou quase R$ 160 milhões para financiar o insosso filme Dark Horse, que conta, na prática, a história de Jair Bolsonaro (é tipo um Lula, o Filho do Brasil, que já é ruim, só que muito pior). Além disso, foi numa mansão de uma empresa de Vorcaro que Flávio organizou o aniversário de uma filha.
Já com Lula, a ligação foi cara a cara, mais pessoal, que sequer passou pelo WhatsApp. Tanto que o próprio GSI (Gabinete de Segurança Institucional) do Governo Federal confirmou aquilo que Lula já havia afirmado em fevereiro de 2026: Vorcaro de fato esteve no Palácio do Planalto. Mas não foi uma vez só: os encontros foram em 2024, um em 1º de março, no qual Vorcaro estava com o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, o assessor Olavo Noleto e o operador de propinas Julio Cezar Miranda Avelino, e o outro em 03 de abril, onde Vorcaro e Julio Cezar se encontraram com Padilha novamente. Vorcaro esteve com Lula em dezembro de 2024, mas a entrada dele nem foi registrada na portaria da Presidência. Ou alguém do entorno de Lula mandou apagar o registro após a prisão de Vorcaro, talvez…
E tanto Lula quanto Flávio ficaram empurrando Vorcaro um pro colo do outro a campanha inteira, sendo que os dois têm rabo preso com ele. Principalmente agora que se descobriu que o ex-banqueiro, além de agenciar meninas para festas com políticos de esquerda, Centrão e direita e ministros do STF, era sócio de uma rede internacional de tráfico de mulheres, temática abordada por Glória Perez quando escreveu Salve Jorge em 2012. E nenhum dos dois candidatos se manifestou publicamente sobre isso até agora, deixando o serviço sujo pros fanáticos trocarem farpas entre si. Ou seja, ambos não negam que seu irmão (no caso de Flávio) e sócio (no caso de Lula) esteja com eles.
Por tudo isso, somado ao que eu disse no artigo de desabafo direto aos fanáticos, só há uma coisa a se fazer no dia 25: votar 00 e confirmar. O voto nulo salva consciências, limpa almas, não te permite ser massa de manobra nem vermelha nem verde-amarela. Te faz manter seu pensamento próprio e seus próprios ideais e ideias. Te deixa com o coração tranquilo, sem medo de enfrentar as acusações que os fanáticos lhe impingirão. Se Flávio ganhar, os fanáticos de Lula te culparão. Se Lula ganhar, os fanáticos de Flávio de culparão. Mas você, eu e os demais 40 milhões de eleitores que não se venderam sabemos que a culpa de tudo isso estar acontecendo agora é dos fanáticos. Portanto, vote nulo. Faça valer a sua neutralidade. E deixe que os fanáticos sejam os culpados (como já o são) por esta barbaridade eleitoral que aconteceu já em 04 de outubro de 2026.












