Derrota no Oscar comprova o quanto nossa cultura regrediu
A cerimônia de realização do Oscar 2026 realizada no domingo 15 nos trouxe a derrota achachapante de um dos filmes mais chatos já produzidos no Brasil, o tão superestimado O Agente Secreto. E desta vez foi uma derrota merecida, não apenas pela qualidade do roteiro, tão duramente criticado até por aqueles que nada entendem de cinema, mas também porque, desde o ano passado, se provou claramente que a Academia não costuma se envolver em polêmicas, sobretudo políticas.
Aliás, em 2025, Ainda Estou Aqui só levou a estatueta de filme internacional, perdendo surpreendentemente nas outras categorias para o subestimado filme Anora, premiando inclusive a atriz Mikey Maddison, que, diferentemente dos nossos atores, além de não ter sequer um perfil ativo nas redes sociais, não se envolveu na guerra entre Fernanda Torres e Karla Sofía Gascón, sendo a última uma das atrizes mais canceladas do ano anterior (só perdendo pra Rachel Zegler, que desceu a lenha no live-action de Branca de Neve, que protagonizou, e agora vem com a desculpinha de que as críticas que recebeu foram unicamente por causa de suas raízes colombianas, embora saibamos que não foi só por isso).
Agora, no circuito de premiações deste ano, dadas as entrevistas públicas que Wagner Moura concedeu pra veículos daqui e de fora, o fracasso no Oscar de O Agente Secreto foi mais do que merecido. E por três distintas (e ao mesmo tempo iguais) razões. A primeira e a mais óbvia delas: a vitória de Michael B. Jordan (representando o filme Pecadores) na categoria de Melhor Ator foi um alento porque, pela primeira vez em 10 meses, não precisaríamos ouvir em discurso o nome do genocida sendo citado no discurso de premiação do vencedor. Afinal, sabemos perfeitamente que petistas e bolsonaristas fazem campanha entre si, não um contra o outro.
Desde que Wagner começou a promocionar o filme em terras estrangeiras, começou a aludir que, sob o desgoverno de Jair Bolsonaro, o Brasil estava vivendo tempos ditatoriais, o que não é de todo verdade. É verídico o gosto do ex-capitão pela ditadura mais sanguinária pela qual nosso país passou, mas a gestão dele, que foi péssima em todos os sentidos, pelo menos serviu pra, além de tudo, difamar Sérgio Moro (que, mesmo pré-candidato ao governo do Paraná, fica se arrastando pelo apoio incondicional dos Sopranos de Brasília) e fortalecer o Supremo Tribunal Federal, que é, hoje, a instituição que realmente manda na vida do brasileiro, mesmo com seus membros corrompidos.
Na verdade, estamos vivendo tempos semiditatoriais agora, desde que Lula subiu ao poder. A esquerda, fortalecida com o horrível mandato de Jair e os devaneios de seus apoiadores, subiu no salto alto de novo (pra não descer tão cedo) e cancela tudo e todos como faz desde 2002, quando foi alçada pela primeira vez ao Planalto. Ora, é verdade que o Jair foi um imbecil em inúmeros aspectos (ele e os filhos), mas Luiz Inácio jamais foi o santo que o PT e seus tentáculos intentam pintar há mais de 45 anos. E com Lula adulando o STF, ficou fácil pra ir preso por ser contra o que a esquerda diz que é verdade. Por isso, a derrota de Wagner Moura serviu pra comprovar que ele, pese a ser um dos melhores atores do nosso país, só fala besteira quando não está atuando.
A segunda razão: a Globo pode não ter se arrependido da audiência massiva que angariou com a grade que armou para aquele domingo, mas se arrependeu de exibir a cerimônia inteira do Oscar porque O Agente Secreto perdeu todas as estatuetas que disputou. Todavia, não é demais notar que a estratégia de guerrilha adotada para derrotar o SBT em horários estratégicos deu tão certo como errado ao mesmo tempo. Isso eu explico no artigo do TVer Ou Não TVer sobre o assunto.
A terceira e última razão, e talvez a mais dolorosa: há muito tempo, o cinema nacional despreza as qualidades de roteiro, arte e produção e passou a focar em histórias políticas unilaterais. Não é demais lembrar que Petra Costa tem sido festejada pela esquerda por mostrar que apenas um lado da política está certo, quando quem tem dois ou mais neurônios, não corroídos politicamente, sabe que a direita e a esquerda se completam nas falcatruas, nas armações e no populismo que engana facilmente os incautos.
Dito isso, onde foram parar o realismo de Eles Não Usam Black-Tie, a crueza de Cidade de Deus, a inteligência de Lavoura Arcaica e a qualidade sensacional em todos os níveis da produção de O Quatrilho? Agora, o que importa são os Bacuraus, os Agentes Secretos, as Democracias Em Xeque, os Ainda Estou Aqui da vida… ou seja, filmes que, apesar de mostrar o quanto o extremismo político é sanguinário, só pintam um lado da moeda como o salvador da pátria. Central do Brasil sim, merecia ter pelo menos dona Fernanda Montenegro premiada. Um filme pungente, comovente, digno de receber um Oscar como melhor filme do ano e que, diferentemente dos recém-nomeados, jamais se percebeu um traço sequer de política no meio.
Central do Brasil mostrou uma nação que esses cinéfilos politicamente cabaços se recusam a mostrar como ela realmente é, isto é, um país que, enquanto os adoradores de Lula e adoradores de Bolsonaro se trocam carícias disfarçadas de farpas:
– sofre com falta de saneamento básico (como tratamento de água e esgoto) em diversas cidades e regiões;
– educação básica com menos investimento que o ensino superior em faculdades federais e estaduais, as quais estão formando mais militantes que profissionais;
– saúde com cada vez menos recursos para suprir necessidades básicas, sendo que há postos de saúde sem ter sequer uma estrutura física adequada para receber pacientes;
– segurança em baixa, com as facções se armando até os dentes (apesar do Estatuto do Desarmamento ser retomado pela atual gestão federal), tomando conta das maiores cidades do Brasil, impondo suas vontades perante moradores assustados e tendo “diálogo cabuloso” com as forças da esquerda;
– falta constante de diálogo entre políticos para recrudescer as penas contra pedófilos, homicidas, feminicidas, LGBTfóbicos e funcionários públicos corruptos, enquanto estes são soltos e vivem suas vidas como se nada os tivesse acontecido, já que a preocupação de diversos setores da política e da justiça brasileiras é censurar humoristas e calar opositores.
Portanto, há que se comemorar a derrota nada surpreendente de O Agente Secreto, porque o filme em nada agrega à cultura cinematográfica do país, melhor representada por Amácio Mazzaropi que por Kleber Mendonça Filho. Mas que o gado do Jair não deve ficar muito alegrinho, não, ah, isso não deve mesmo. Não porque seu líder está enfermo, quase batendo as botas, mas porque foi por causa do Jair que a esquerda se fortaleceu. E é por causa dele que seu filho, Flávio “El Rachador” Bolsonaro, se postula como pré-candidato à Presidência com o único projeto de campanha de tirar seu pai da prisão, sem apresentar uma única proposta que preste que justifique sua provável candidatura.
Do jeito que as coisas têm piorado, é mais fácil Flávio, Eduardo, Carlos e Jair Renan irem parar na mesma cela que o pai do que saírem candidatos a alguma coisa. E tem mais: Bolsonaro e Lula são tão iguais que acredito que os dois vão acabar morrendo no mesmo dia. Aí, nem esquerda nem extrema-direita sobreviverão à perda dos seus dois semideuses. E finalmente teremos um longo período de paz e calmaria até a chegada do Anticristo.
