A revolta foi unânime em Cascavel
Muita gente sabe que, em 1980, o Campeonato Paranaense foi dividido entre dois clubes hoje extintos: o Cascavel Esporte Clube, que vinha embalado na reta final do certame, e o Colorado, que daria origem ao Paraná Clube no fim da década. O que pouquíssima gente sabe é que a divisão do título ocasionou uma das maiores revoltas já vistas contra um presidente de federação estadual.
Na última rodada do quadrangular final, em 30 de novembro de 1980, Colorado x Cascavel jogavam na Vila Capanema, em Curitiba. A serpente podia perder por até 4 gols que ganhava o campeonato. O que ninguém esperava é que essa vantagem poderia ser revertida já no primeiro tempo se não houvesse o cai-cai que viria à seguir. Jorge Nobre, que acabou indo jogar no Cascavel em 83, abriu a contagem pro Colorado. Aí o ponta Marcos “Cavalo” deu um chutão pra arquibancada e foi expulso direto. Maurinho entrou no jogo e também foi expulso. O goleiro Zico, que no mesmo campeonato já havia feito um gol à la Pedro Rangel, jogou contundido (guardem essa informação).
Jorge Nobre fez 2x0, o que motivou o técnico Borba Filho a recorrer à prática do cai-cai, confirmada na volta do intervalo, já que Nelo e Dudu não subiram pro campo e o Cascavel voltou com 7. Dada a saída do segundo tempo, recuaram a bola pro goleiro Zico, que caiu, se contorceu e o juiz Tito Rodrigues esperou 15 minutos (previstos no regulamento) pra poder dar números finais à partida. Os jogadores do Colorado deram até volta olímpica. A prática do cai-cai deu origem ao boato de que Borba Filho só fez o que fez porque iria pro Coritiba em 1981, o que acabou se confirmando, transformando Borba em inimigo público nº 1 em Cascavel na época.
Na quinta-feira 04 de dezembro, o Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-PR), por 6 votos a 0, puniu o Cascavel com a perda dos pontos do jogo (o que é um contra-senso, vide que o clube perdeu pro Colorado), a perda da renda em favor da FPF e multa de 200 cruzeiros, além da suspensão de Borba Filho por 10 dias e de Marcos e Maurinho por duas partidas cada. Ainda além disso, uma sindicância apurou que Nelo e Dudu não poderiam voltar ao gramado por supostamente terem sido empurrados no túnel de acesso ao vestiário (contusão grave, diziam), enquanto o goleiro Zico não tinha condições de voltar a campo.
Sendo assim, o TJD deu por encerrado o campeonato. Na teoria, o Cascavel deveria ser considerado campeão pelo saldo de gols ser maior que o do Colorado. Só que a decisão final seria da FPF, presidida na época por Luiz Gonzaga da Motta Ribeiro. A decisão deveria sair na terça-feira 09, mas Motta Ribeiro enrolou mais que político arrolado em CPI e, na sexta-feira 12, decidiu que Cascavel e Colorado dividiriam o título estadual. Além disso, com aval da CBF, Motta Ribeiro incluiu o Cascavel na Taça de Prata (Série B) de 1981, entregando a vaga dele na Taça de Ouro (Série A) ao Pinheiros, 4º colocado no quadrangular final. Segundo Motta Ribeiro, “(…) face aos acontecimentos que tumultuaram o final do nosso campeonato, (…) estamos fugindo do critério técnico, mas foi a melhor maneira que encontramos para tomar uma medida coerente”.
O jornalista Fernando Gomes, que assinava uma coluna na página de esportes do jornal O Paraná, escreveu, no domingo 14, o seguinte: “(…) A partir de agora, o Sr. Motta Ribeiro passa a ser persona non grata em Cascavel porque ele foi quem fez tudo contr o nosso time (…)”. E o povo levou isso a sério até demais. Na segunda-feira 15, a Camisa 12, torcida organizada do Cascavel, confeccionou um boneco de espuma batizado como… Motta Ribeiro. Na quarta-feira 17, na Avenida Brasil, via principal da cidade, fizeram uma passeata com um caixão e diversos cartazes descendo a lenha no presidente da FPF, com O Paraná registrando aquilo como se fosse um “enterro simbólico”. E como se não bastasse, queimaram o caixão!
E o mais insólito de tudo isso: na edição da sexta-feira 19, na mesma página onde O Paraná publicou a matéria com a foto acima sendo a última da página, eles publicaram o anúncio de um enterro de verdade!
Bom, fato é que tanto o Pinheiros quanto o Cascavel se ferraram no Brasileirão. O Pinheiros foi parar no Grupo B da Taça de Ouro, sendo eliminado por um ponto de diferença para o Botafogo, que ficou em 7º no grupo. Já o Cascavel foi parar no Grupo D da Taça de Prata e também ficou em 7º… só que só dois se classificavam pra segunda fase (Guarani e Coritiba passaram no Grupo D). Já o Colorado, o único beneficiado pelo tapetão da FPF, ficou em 3º no Grupo A da Taça de Ouro. Só que o karma do Motta Ribeiro foi tão forte que, na segunda fase, o Colorado caiu no Grupo L, o mesmo grupo de Flamengo e Atlético MG (que foram os finalistas da Taça de Ouro de 1980) e foi eliminado. Depois disso, o Cascavel Esporte Clube nunca mais conseguiu chegar sequer perto do título paranaense, sendo extinto anos mais tarde.


