Tiradentes e a liberdade do Brasil

O primeiro conhecido a morrer pela pátria

Joaquim José da Silva Xavier aprendeu desde cedo a se virar. Foi garimpeiro, tropeiro e dentista (por isso o apelido de Tiradentes). Se alistou em 1780 na tropa da capitania mineira, sendo promovido a alferes no ano seguinte. Não obteve quaisquer promoções nos anos subsequentes. Devido às constantes circulações entre Vila Rica e o Rio de Janeiro, Tiradentes começou a se politizar contra a rainha Dona Maria I de Portugal, dada a centralização que impunha, o que fazia com que a metrópole arrecadasse mais posses e não as repassasse às colônias. Principalmente porque a instituição da derrama, cujo imposto chegava a 20% do ouro em pó produzido pelas colônias, aliada à corrupção dos governantes da capitania, fez com que surgisse a Inconfidência Mineira, onde Tiradentes divulgava com afinco os ideais do movimento.

Poetas e intelectuais como Tomás Antonio Gonzaga, por exemplo, participavam da Inconfidência, cujo objetivo era a independência de Minas Gerais, a criação da república, a reorganização fiscal e a mudança de capital para Vila Rica ou São João Del-Rei. Todavia, o Coronel Joaquim Silvério dos Reis, fazendeiro e dono de minas de ouro, escreveu uma carta de delação ao Visconde de Barbacena entregando os inconfidentes. Com isso, a derrama acabou suspensa e os líderes da Inconfidência foram presos. O vagabundo, além do perdão das suas dívidas, pediu ouro, a nomeação pra Tesoureiro de Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro, uma mansão, pensão vitalícia, a fidalguia da Casa Real e um encontro com Dom João VI. Não sabemos se ele conseguiu tudo isso, mas a traição ao movimento custou caro a Silvério dos Reis, que acabou sendo perseguido, sofrendo atentados no Brasil e fugindo pra Lisboa.

Com a instauração do processo, os presos foram investigados e acusados por lesa-majestade, o que seria equivalente, hoje, ao crime de ameaça à soberania da pátria (crime pelo qual os vândalos do 8/01 foram condenados). A devassa aconteceu entre 1789 e 1792, quando a maioria dos condenados foi exilada do país à força (o que se conhecia como degredo, porque não voltavam nunca mais pra cá). O único condenado à morte foi Tiradentes, que foi enforcado e esquartejado cruelmente, tendo a cabeça sendo exposta em praça pública em Vila Rica e o restante do corpo espalhado pela estrada que ligava Vila Rica ao Rio (o chamado Caminho Novo).

Como se não bastasse, destruíram sua casa, confiscaram seus bens e consideraram sua memória como infame. Durante o Império, sua memória foi, de fato, infame. Mas com a Proclamação da República, em 1889, Tiradentes foi considerado o que ele realmente foi: um mártir. Mártir esse que foi utilizado politicamente por Vargas e pela ditadura militar como exemplo de ordem, patriotismo, unidade nacional e disciplina cívica, o que, claramente, nem Vargas e nem os generais da “Revolução” de 1964 foram.

Tiradentes foi exemplo, isso sim, pros caras-pintadas que derrubaram Collor em 1992 e pros movimentos que derrubaram Dilma em 2016. Nesses dois últimos casos, contudo, as tentativas de repressão por parte dos governos deram errado. Tiradentes acabou se tornando um exemplo de resiliência e resistência contra os desvarios do governo, tornando-se mártir da Inconfidência. Hoje falta exemplo pra isso. Os vândalos de 8/01, por mais imbecil que tenha sido a condenação por golpe por parte do STF, não podem ser considerados mártires por estarem a serviço de um opositor direto do governo.

Tiradentes não era ligado a nenhum governante propriamente dito, mesmo sendo basicamente da polícia da capitania de Minas Gerais. Portanto, que todo aquele que ousar comparar Tiradentes aos vândalos do 8 de janeiro repense seus conceitos. Urgentemente.