E nenhum ser humano terá a capacidade de refutar este artigo, antes, durante e depois da Copa
Carlo Ancelotti definiu a pré-lista de convocados pra Copa do Mundo 2026, da qual 26 serão oficializados amanhã. Vamos destrinchá-la aqui e eu darei minha sincera opinião sobre quem deve e quem não deve ir pra Copa, certo? Errado. Há várias conjecturas tecidas, mas nenhuma oficial. Porém, em todas as pré-listas publicadas nas redes sociais de maneira extraoficial, há uma coincidência muito grande: Neymar está na pré-lista. Mas levá-lo pra Copa seria o erro mais crasso que Ancelotti cometeria em seu efêmero ciclo à frente da Seleção.
Já vi muita gente, principalmente fanáticos, comparar Neymar a Pelé ou Ronaldo. Todavia, há uma grande e abismal diferença entre os três.
Pelé, até 1974, jogou por apenas um time: o Santos Futebol Clube, onde explodiu assim como Neymar. Marcou 1.294 gols ao longo de sua carreira (sendo 95 deles violentamente desconsiderados pela FIFA e por alguns veículos de imprensa estrangeira por serem amistosos contra “times de pedreiro”), dos quais 77 foram pela Seleção ao longo dos 91 jogos que disputou. Porém, das quatro Copas que jogou, venceu três taças. Em 1958, só foi ser titular na última rodada da fase de grupos, marcando gols antológicos na semifinal e final. Taça! Em 1962, se machucou feio na segunda partida, mas não foi cortado da Seleção, incentivando-os a serem bicampeões, portanto. É verdade que em 1966, com Pelé titular, o Brasil foi eliminado na fase de grupos (ou seja, Pelé ainda não havia aprendido a jogar sem Garrincha). Mas em 1970, Pelé jogou, ajudando o Brasil a levar o tricampeonato. Saldo positivo: 3 Copas.
Ronaldo, por sua vez, após ser revelado pelo São Cristóvão (RJ) e explodido no Cruzeiro, foi pro PSV e de lá pro estrelato definitivo. Contudo, das três Copas que disputou, ganhou duas. Em 1994, sequer entrou (pelo que eu me lembro), mas foi convocado no Tetra. Em 1998, a final de triste lembrança foi marcada por sua convulsão, misteriosa até hoje, mas ele foi titular em todos os jogos. Em 2002, assim como Neymar, vinha de lesões constantes no joelho, só que deu-nos o penta e foi artilheiro. Saldo positivo: 2 Copas.
Já sobre Neymar todos nós conhecemos os passos que deu no futebol do começo até hoje. Sabemos que ele superou Pelé na artilharia da Seleção, marcando 79 gols em 125 jogos (uma média menor que a de Pelé, portanto). E vocês sabem como foi o desempenho dele em Copas, mas não custa relembrar: das três Copas que disputou, acabou sofrendo lesões em duas e não foi bem nos jogos decisivos em duas, o que nos custou três ciclos perdidos. Em 2014, por uma joelhada criminosa de Zúñiga, correu risco de perder os movimentos nas pernas e saiu da Copa. Conclusão: 7x1 pra Alemanha. Em 2018, Neymar foi titular contra a Bélgica, mas não fez bosta nenhuma de relevante e perdemos feio por 2x1, no que eles consideraram uma vingança da eliminação belga em 2002. Em 2022, Neymar até finalizou bem no tempo normal, mas na prorrogação só conseguiu chegar de fato ao gol uma vez. Pra nossa raiva, a Croácia também. Levaram pros pênaltis e perdemos. Sem contar que, nessa Copa, Neymar também se machucou. Saldo nulo: 0 Copas e muitas lesões.
E vagabundo tá lá… "Ain, mas Zico também jogou três Copas e não ganhou nenhuma..." Mas Zico ganhou muito mais títulos em toda sua história como jogador do que Neymar depois que este retornou ao Santos.
Antes que venham dizer que sou isto ou aquilo, não estou sendo partidário de ninguém aqui, afinal, este blog não fala mais sobre política. Estou dizendo apenas que um jogador, cujo auge foi nos tempos de Barcelona, que perdeu muito tempo em Paris disputando atenção com Kylian Mbappé (que é o responsável agora por toda a confusão interna do Real Madrid como o fora no PSG) e que, saindo de Paris, foi pra Arábia passar mais tempo parado que jogando e que, portanto, o desempenho no Santos o desabona de uma convocação, não tem condição física, laboral e quiçá psicológica de ser o camisa 10 da Seleção (posto que, aliás, ele jamais mereceu, visto que o número dele sempre foi o 11). Não adianta querer levar Neymar pra Copa por causa de seu passado na Seleção e do legado que deixou. De nada adiantam os ouros olímpicos, as Copas Américas, o desempenho arrasador nas eliminatórias da copa… se ele não teve cacife pra conquistar o único torneio de futebol masculino que realmente importa pra Seleção, que é a Copa do Mundo. O que querem é que ele vá por, nas palavras de alguns, “puro entretenimento”. Gente, Copa não é circo e nem show de stand-up. A Seleção não pode tratar o maior evento esportivo masculino como “puro entretenimento”. Estamos falando de uma obsessão que nos custou cinco copas (24 anos desde o penta) e da qual Neymar não fez o mínimo esforço para tê-la em mãos, ainda que não fosse culpa dele o 7x1 de 2014 porque Zúñiga o tirara das semifinais.
Por isso, levando-se em conta que Neymar só consegue fazer excelentes jogos pela Seleção se não estiver em ciclo de Copa (não obstante, sempre se mostrou de fato mais eficiente nas eliminatórias que na Copa propriamente dita) mas, no momento decisivo, algo estranho lhe acontece (igual Ronaldo na final de 98), e dado o que foi anteriormente escrito neste artigo, é puramente fanatismo afirmar que Neymar merece ser convocado pra Copa de 2026. Afinal, tem fanático pra tudo hoje em dia, seja pra político, pra artista, pra religião… o fanatismo aliado ao politicamente correto destruíram a sociedade que conhecíamos hoje. Então, se Carlo Ancelotti realmente convocar Neymar, estará cedendo aos fanáticos que querem ajudar a nossa seleção a se afundar ainda mais.
“Ain, mas ninguém é melhor hoje em dia…” Quê? Tu conhece Endrick? João Pedro? Rayan? Kaio Jorge? Esses garotos estão jogando regularmente em seus respectivos clubes e alguns deles desencantando quando de fato é preciso. Dizer que, atualmente, não há jogador melhor que Neymar é desconhecer a realidade (ou é canalhice de fanático mesmo). Ele não tá sendo melhor nem no Santos, de onde temos certeza que não vai sair (até porque é o Santos que deve a vida ao jogador, visto que tá fazendo de tudo pro Neymar comprá-lo). Ele não faz bons jogos há um certo tempo, dado o fato de que só mostra serviço mesmo quando está perto de alguma convocação importante, tipo agora. Portanto, se Ancelotti fizer o desfavor de convocar Neymar e não levar pelo menos o Endrick ou deixar este no banco em detrimento do craque geracional, estará condenando a seleção a perder até pro Haiti na Copa. Fosse eu o Ancelotti, levaria o Endrick pra ser o camisa 10. Nem que, assim como Pelé em 1958, o garoto só pudesse ser titular de fato a partir da última rodada da fase de grupos.
Portanto, se o Neymar for convocado, a culpa por perdermos a vaga nas semifinais será dele, dos (e das) neymarzetes, do Ancelotti, da CBF e de todos os vagabundos que o estão querendo na Copa. E até aqueles que estão pedindo tanto sua convocação vão colocar sobre ele o peso da culpa da nossa eliminação que, com ele, será tão fulminante quanto a de 2006 pra França. Sem ele (e sem Alisson, Marquinhos, Thiago Silva e Casemiro, que são a panelinha eterna do Tite), conseguiremos o hexa vencendo até por 1x0 na final. Com ele, seremos mais uma vez esculachados pelos demais países, sendo inclusive alvos de ataques racistas e xenofóbicos por figuras que não têm uma capacidade cognitiva muito aprazível.
Pense, Ancelotti: o que é melhor agora pra nós? Neymar na Copa e uma eliminação misteriosa ou o hexa nas mãos sem essa dependência de um jogador que, assim como seus fanáticos, vive dos êxitos do passado? Então, Ancelotti, não me espere dizer que avisei. Leve o Endrick. Envergue a 10 nele. Faça-o jogar todos os jogos como titular. Mas não convoque Neymar, pelo bem da pátria amada.
