O som, a Fúria e o título

O favoritismo argentino caiu por terra na terra do Tio Sam


Finalmente, chegou ao fim o período mais festivo do ano. Depois de um mês e oito dias, a Copa do Mundo dividida em três sedes apurou o seu campeão. 48 seleções começaram o torneio em busca de um sonho. Desde as mais tradicionais, como Argentina, Espanha, França e Brasil, até as estreantes como Curaçao e Cabo Verde, todas desfilaram do bom ao mau futebol.

É lógico que o fracasso da seleção brasileira já era anunciado, mesmo sendo (ainda) a maior campeã da história das Copas. Mas as suspeitas de compra da Copa começaram pra valer quando, além das faltas cometidas pelos argentinos e não marcadas para os adversários, Donald Trump meteu a colher no virado e, na cara dura, forçou Gianni Infantino a suspender a expulsão de um dos jogadores da seleção dos Estados Unidos alegando roubo. Logo o Trump? Fato é que a manobra deu tão errado que a Bélgica, com requintes de crueldade, já desceu um 4x1 no lombo do camarão branco.

Enquanto isso, a Argentina vinha patrolando um por um. Sofreu pra ganhar da aguerrida equipe de Cabo Verde na prorrogação dos 16-avos, virou pra cima do Egito nas oitavas, se aproveitou da fraquejada da Suíça na prorrogação das quartas (dada a simulação cometida por Embolo, que deve ter levado uma grana alta da Betano por isso) e mandou a Inglaterra pra decisão de 3º lugar, preparando-se pra enfrentar a Espanha. É aqui que eu entro na história.

Um dia antes da partida entre Argentina x Suíça, eu gravei, para o YouTube, mais um episódio da série “De Cabo a Rabo” fazendo um top 7 dos momentos mais comentados da Copa. Um deles era Lionel Messi, que antes de enfrentar os suíços já havia feito 8 gols e superado Kylian Mbappé, seu adversário na artilharia da Copa e das Copas. Além disso, tava jogando o fino da bola, dando assistências pra gols importantes da Argentina. E passei alguns dias penando pra editar o vídeo, através do celular pelo aplicativo inShot (sem jabá, frise-se). O resultado? 33 minutos e 32 segundos de muita falação. Quer ver? Clique aqui. Não é bait e não vai pro site da BetMGM.

Foi só eu terminar de gravar que, no dia seguinte, Messi começou a dar só assistências. Deu uma contra a Suíça e duas contra a Inglaterra, não marcando em nenhuma das duas partidas e ficando basicamente apagado na decisão, permitindo com que Mbappé, ainda que a França ficasse relegada ao 4º lugar, o superasse com folga na artilharia da Copa (10 x 8) e das Copas (22 x 21). E tudo piorou quando eu postei o vídeo em meu canal, devidamente editado, a dois dias antes da final e a um da decisão de 3º lugar.

Os pólos se inverteram. As seleções que, de fato, deveriam estar na final e acabaram fazendo jogos horríveis contra Espanha e Argentina, protagonizaram aquela que, de longe, superou todas as partidas anteriores da Copa 2026. França 4x6 Inglaterra. Nem as malditas odds das malditas bets previram um show de bola como esse. Mesmo perdendo, a França acabou entrando pra história de novo. Kylian Mbappé provou que esta Copa, além do meme do “Le Dictateur” ou “Le Général”, o qual ele levou na esportiva (o que era óbvio, vide que ele é um esportista de verdade), era uma espécie de tudo ou nada pra ele.

A temporada 25/26 do craque no Real não havia sido tão lembrada pelo que ele fez em campo (pouca coisa, aliás). Os bastidores é que ressaltaram mais. Dizia-se que ele era quem deixava o ambiente turbulento, o que ocasionou a criação do meme em questão. Porém, com a seleção, Kylian parecia ser outro cara. Mais leve, mais solto, menos estressado (vai ver quem estressa ele é o Florentino)… o que o permitiu desempenhar sua atividade com galhardia e sem medo de ser quem ele é. Um esportista de verdade.

Apesar deste blog não falar mais sobre política já há algum tempo, não podemos ignorar que Kylian superou até o racismo e a xenofobia cometidos pela senadora Celeste Amarilla, da centro-esquerda paraguaia, que acabou sendo rechaçada por ele, pela FFF (Federação Francesa de Futebol) e até pelo gabinete do presidente Santiago Peña, que até 2016 era do mesmo partido de Amarilla. Apesar da senadora ter ameaçado Mbappé de prisão, relembrando da vez que Ronaldinho Gaúcho foi preso por tentar entrar com passaporte falso no país, e ter se escudado na desculpa de que Kylian teria sido “machista” e “misógino” (isso lhes lembra algo?), o camisa 9 dos Bleus respondeu em campo.

A Inglaterra, por sua vez, se fazia de morta pra surpreender seus adversários no meio do jogo. Quando estava 0x0 ou 1x0 pros contrincantes, Jude Bellingham e Harry Kane renasciam das cinzas e criavam jogadas absurdas, o que faziam o torcedor pensar como e porque os ingleses não tinham feito aquilo até então. É lógico que essa estratégia não funcionou frente a catimba da Argentina, permitida pela FIFA até dizer chega, esfregada na cara dos fanáticos de Messi (que mesmo assim fingiam não ver e, por amor ao craque, mostravam outras jogadas que não foram falta também) e levada até às últimas consequências por nomes como Enzo Fernández, que deveria ter sido expulso por reclamação contra a Inglaterra. Por diversas vezes foi encher a paciência do árbitro, cuja passividade e medo de represálias por parte de Infantino não o permitiram ser incisivo. Todavia, foi o mesmo Enzo que se aproveitou da falha de percepção da Inglaterra de que o jogo não havia acabado e empatou a partida, com assistência de Messi.

Mas a verdade é que Bellingham, Mbappé, o jovem Barcola, o Bola de Ouro Dembélé e o ousado Declan Rice, além do surpreendente Bukayo Saka (que aplicou um hat-trick na disputa do bronze), reservaram pro 18 de julho de 2026 a masterclass que se esperava pro dia seguinte. No entanto, a finalíssima em Nova Jersey foi a mais modorrenta possível. Com o perdão dos k-popers, mas a partida entre Espanha x Argentina foi mais chata que o processo de plágio que os BTS, que cantaram na festa de encerramento, estão sofrendo por causa de uma música do tão comentado disco Arirang.

E surpreendentemente, tudo o que a Argentina fez na Copa inteira acabou pagando justamente na final, frente a um Infantino contrariado. Para a tristeza dos pseudojornalistas André Rizek e Ana Thais Matos, que declararam publicamente e de forma séria sua torcida à alviceleste (diferentemente da CazéTV, na qual todo mundo desceu o sarrafo), Enzo Fernández finalmente levou o vermelho que era esperado no confronto anterior e a Argentina se desligou do jogo.

E foi nesse contexto que entrou a Espanha. Comendo pelas beiradas, liderou o Grupo H (mesmo empatando com Cabo Verde na estreia), e só jogou a Liga das Nações da UEFA nas eliminatórias, vencendo Áustria, Portugal, Bélgica e França. Até a final, marcou 13 gols e só sofreu um: saldo de +12. Entrava pra lutar pelo bi, pra ser invicta. No banco, o técnico era um Luis. Não o Aragonés, o experiente vencedor da Euro 2008 e muito identificado com o Valencia, mas o de la Fuente, que só treinou equipes de segundo escalão no profissional e era muito identificado com a base, maiormente da seleção, na qual estava desde 2013.

No gol, Unai Simón, titular incontestável, sempre atento e seguro quando exigido. A zaga repleta de jovens nomes, tais como Pedro Porro, do quase rebaixado Tottenham (ING), Pau Cubarsí, do Barcelona, e o mais conhecido da zaga, Marc Cucurella, que vai jogar a temporada 26/27 no Real Madrid e que conseguiu transformar sua imagem, de zagueiro odiado por ser um carrapato nos atacantes a amado por ser um pai presente e um cara gente fina. Que ele jogue no Real o que jogou na Copa.

No meio, Mikel Merino, Fabián Ruiz, Pedri e o igualmente odiado Rodri, mas este por motivos óbvios: o racismo escancarado cometido pela France Football, ignorando solenemente a temporada 23/24 que Vinicius Júnior fez pelo Real e entregando a Bola de Ouro a Rodri, que não performou tão bem quanto performou agora na Copa, ainda está engasgado na garganta de muitos, principalmente no Brasil. Foi ele o capitão da Fúria? Foi. Merecia? Não, Cucurella merecia mais que ele. Mas que ele jogou mais na Copa 2026 que na temporada 23/24 inteira, ah, jogou.

E no ataque, a base veio forte: Dani Olmo, que era um camisa 10 no banco e, quando entrou, deu duas assistências, Oyarzábal, artilheiro da Fúria com 5 gols, o que subiu consideravelmente seu passe e pode dar uma grana alta pra Real Sociedad em caso de venda pra um time de maior escalão (tipo um Bayern de Munique da vida), Lamine Yamal, que fez um só mas ajudou muito, Nico Williams, também com uma assistência, e o autor do gol do título: Ferran Torres, o Iniesta da Fúria 26.

Em 2010, Andrés Iniesta, cuja carreira começara profissionalmente em La Masía, era um meia já consolidado no Barcelona, vindo pra Copa pra ser uma das referências daquele esquadrão que tinha nomes experientes como seu parceiro Puyol na zaga e seu rival Casillas como titular no gol. A diferença é que o meia já havia marcado contra o Chile antes de deixar sua marca fatal contra a Holanda na final.

Em 2026, Ferran Torres, cuja carreira começou profissionalmente no Valencia, já é um nome mais que consolidado no ataque do Barça. Só na temporada 25/26, Ferran marcou 20 gols e deu 3 assistências em 45 partidas jogadas. Na Copa, ele já havia dado a assistência ao gol que Merino marcou pra eliminar Portugal. Merino, inclusive, levou um chute de Messi, que, de novo, não foi expulso. O momento de brilho dele veio mesmo no 1º minuto do 2º tempo da prorrogação, quando Nico Williams deu a assistência dourada pro atacante da camisa 7 espanhola mandar pro fundo das redes de Dibu Martínez.

Foi o prego no caixão da catimba argentina e da falta de vergonha na cara de Infantino e Trump, cujos semblantes tristes na entrega da medalha de prata aos jogadores da seleção de Messi retratou bem que os crimes não compensaram nenhum pouco.


Sobretudo o crime da violência e da agressividade que tanto marcam os jogadores do nosso país vizinho. Depois que o juiz apitou pela última vez na partida, Rodri vinha correndo em direção aos seus compatriotas pra comemorar o bicampeonato quando deu um encontrão no argentino Molina.

Rodri, na sua elegância de sempre (elegância esta a responsável pela France Football ter lhe outorgado a Bola de Ouro da temporada 23/24 em detrimento de Vini Jr.), foi tirar satisfação, enquanto os reservas Iglesias e Eric García partiram pra cima de Molina, que saiu dali. Pronto. Foi o suficiente pra Paredes, outro catimbeiro que não vai deixar tanta saudade assim, começar a empurrança junto com Almada. Otamendi, mais um sujeito chegado à confusão, foi descendo a lenha em Rodri pelo fato de Laporte, zagueiro da Fúria, por ter passado pano na catimba e na agressividade no futebol, e pelo próprio Rodri ter criticado duramente a arbitragem após a partida contra a França.

A empurrança só foi acalmada quando o lendário Samuel, que foi zagueiro da seleção argentina, junto a outros jogadores que não haviam se envolvido, apartaram a peleia e separaram os briguentos. E o pior foi a Argentina fazer uma postura já conhecida no jogo de celular Soccer Superstar, quando o seu time perde a final de algum torneio importante: viraram as costas pro palco onde a Espanha recebia com festa a taça e as medalhas do título e conversavam com a sua própria torcida. O jornal As afirmou, com todas as letras, que os argentinos desprezaram o time campeão.

Mas, peraí: o que é que o As esperava que os argentinos fizessem? Saudassem a Espanha depois de terem protagonizado cenas lamentáveis após o apito final? Aliás, deviam ter descido também a lenha em Infantino, que estava tristíssimo porque seu Messi querido não iria erguer a taça, ao invés de chamar a final onde a seleção que representava seu país triunfou de “final sombria”. Ah, por favor… quem é o redator-chefe do As? O Fábio Sormani?

Bem, fato é que, diferente do que Lionel Scaloni afirmou na coletiva, a Argentina foi uma péssima perdedora, dentro e fora de campo, por mais que o próprio Scaloni, durante toda a Copa, adotasse uma postura que não é muito comum dos profissionais do futebol argentino. A verdade é que Scaloni não mereceu a seleção que assumiu, principalmente porque foi o único a ter coragem de assumir a bomba que a AFA de Chiqui Tapia armou.

Chiqui Tapia foi, sem sombra de dúvidas, o maior derrotado da seleção alviceleste na final. Conseguiu ser pior que todos os presidentes da CBF desde a fundação desta, transformando o sistema de ligas do futebol argentino na bagunça mais desorganizada de todos os tempos, deixando a Primeira, a Segunda e até as divisões inferiores da Argentina mais ininteligíveis que os Campeonatos Belga e Carioca juntos. Conseguiu manchar até a imagem de Messi em algumas partes da Argentina, sendo que o gênio dos gramados foi chamado de vendido, assim como o veterano Di María, estrela do Rosario Central e um dos poucos defensores de Tapia.

O maior rival do Eurico Miranda riopratense chama-se Juan Sebastián Verón, cartola do Estudiantes e o mais aterrorizante dos volantes argentinos nos anos 90 e 2000. Verón enfrentou, de cabeça erguida e sem medo, todos os desmandos e prepotências do dono do Barracas Central. Sofreu punições de todos os tipos por dizer a verdade sobre Tapia, mas permaneceu firme em suas convicções. O tempo e a derrota na final da Copa, afinal, lhe deram razão.