Não era debate, era cilada

Debate da Band foi a briguinha de casal em seu estado mais puro


Há oito anos, a disputa pra se decidir de que lado um eleitor se encontra se dá pelo polegar e pelo indicador. Depende para qual lado você os gira. Se girá-los 45º à Oeste, você será apontado como bolsonarista. Se girá-los 45º à Norte, você será apontado como petista. Levando-se isto em consideração, os dois escolhidos pelos fanáticos deste país, ambos envolvidos nas mais diversas falcatruas, se muniram cada um de seus delatores e foram pros estúdios da Band no Morumbi, em São Paulo, dispostos a discutir a relação, tal como eles e seus fanboys queriam.

Lembro-me ainda do último horário eleitoral gratuito da campanha para o governo de São Paulo, em 1990, no qual Paulo Maluf, tentando justificar suas ausências nos debates do 1º turno e tentando colar em Luiz Antônio Fleury Filho, seu algoz, a fama de “fujão de debates”, cunhou a seguinte frase: “Debate de sete não é debate, é bate-boca e todo mundo sabe disso. Debate de dois, sim, é debate de verdade (…)”. Pois bem: fugir de debates não é exclusividade das eleições 2026. O precedente foi aberto há 52 anos, em Minas Gerais, e envolveu o hoje falecido Itamar Franco.

Só que, como eu disse na carta aberta aos meus amigos que votaram branco, nulo ou em outros candidatos, ou que não compareceram, Lula e Flávio Bolsonaro estavam basicamente com o mesmo estratagema: fugir dos debates do 1º turno, alimentar seus gados digitais e arregimentar boiada nova pra irem ao 2º turno e brigarem entre si. A estratégia, como se viu no debate da Band do dia 18 de outubro, foi acertada para os dois e para os fanboys dos dois, mas lamentável para nós, pessoas de dois ou mais neurônios ativos, sinapses funcionando e consciências limpas, que assistimos, senão o debate todo, pelo menos os demasiados cortes, a duas crianças discutindo sobre quem comeu mais pedaços de bolo às escondidas.

Afinal, depois da reveladora entrevista da empresária Roberta Luchsinger, a “pilantra” que Lula dizia não conhecer, à CNN Brasil no dia anterior, Flávio encontrou o bode expiatório perfeito para atacar o algoz de seu pai. Lula, por sua parte, não tira Vorcaro da boca desde que confessou publicamente que o mesmo o visitara no Palácio do Planalto, confissão esta que, repito, foi feita em fevereiro, e o usou para juntá-lo às costas de Flávio como se fossem ambos um quebra-cabeças criado pela Hasbro para meninos de até 5 anos de idade mental. Que ambos parecem ter.

A eterna discussão sobre quem quebrou os vidros do Palácio do Planalto chutando a bola mais alto não só confirmou a posição de quem já ia votar mesmo nulo (como no meu caso), como também virou voto para a turma dos brancos e nulos. No Twitter, logicamente, é mais difícil que isto aconteça, pois boa parte das boiadas foi arregimentada por lá. Nas demais redes sociais, entretanto, o que mais se vê são pessoas dizendo publicamente que, depois de um debate nada esclarecedor como esse, o mais correto é votar nulo.







A carta aberta, por mais incrível que pareça, está fazendo efeito. Ora, como acreditar que as movimentações na Câmara e no Senado, cujo intuito é fazer com que ambos aprovem benesses que Lula teve 4 anos pra fazer e não fez, não são eleitoreiras? Como acreditar que Flávio, por mais moderado que possa parecer para alguns, não está jogando verde para governar de uma maneira mais truculenta que o próprio pai? Vocês acham realmente que eu desperdiçaria meu voto em um desses dois vagabundos? A troco de quê? De sujar minha consciência? De fechar os meus olhos para o quão errados eles são? De deixar que um ou outro lavem meu cérebro pra que eu saia gritando “Lula guerreiro do povo brasileiro” ou “Jair Bolsonaro livre”?

Não, senhores. Eu não me vendo por migalhas. Minha alma e meu espírito estão conscientes de que, se não fosse pelos 104 milhões de votos desperdiçados nesses dois filhos duma égua, nós teríamos um 2º turno decente, com sabatinas e debates decentes, com figuras decentes… e principalmente, com figuras que, de um jeito ou de outro, não estariam ligadas nem a Vorcaro nem a Luchsinger. Portanto, não há mais como se ter um pingo de esperança neste país. Não enquanto os fanáticos decidirem pelos 40 milhões de eleitores que decidiram não se humilhar perante Luiz Inácio Lula da Silva e a máfia Bolsonaro.