Por essa guerra só não esperava quem não acompanha futebol
Um tapa com porrete de espinhos dado pela UEFA foi o pontapé inicial para aquela que promete ser a maior das batalhas entre a FIFA e suas afiliadas na história do futebol. Depois que Infantino decidiu não arredar o pé da mais imbecil das propostas que já realizou às confederações continentais em toda sua gestão, sobre a qual já abordamos no artigo anterior, eis que a UEFA puxou o coro das confederações P da cara. Por ser a mais importante de todas, foi também a que resolveu, com classe e elegância, chamar o Infantino de filho duma égua, como sugeri.
“Nenhuma seleção da UEFA vai participar de competições da FIFA enquanto estas propostas estiverem vivas (…)”, diz a confederação em seu comunicado oficialíssimo, ao qual Gabriele Gravina, vice-presidente da entidade, adicionou um temperinho a mais, dizendo que a proposta sórdida da divisão dos lucros da Copa com investidores privados se equivale à proposta da Superliga inventada por Florentino Pérez, que tinha justificado a criação de tal aberração esportiva com a desculpa de não ter conseguido, na época, comprar o Mbappé, o que só conseguiu porque ele saiu por vontade própria do PSG anos depois.
Lógico, nem tudo são flores: a UEFA quer que o candidato às próximas eleições da FIFA seja o mecenas do PSG, Nasser Al-Khelaifi, o que favoreceria ainda mais a já influente máfia árabe dentro da organização. Também a Confederação Africana de Futebol (CAF), presidida por Patrice Motsepe, cujo vice é o presidente da federação de Marrocos, que conquistou a última Copa Africana de Nações no tapetão (é sempre bom reforçar), endossou o discurso de Infantino e mandou convocar o Comitê Executivo pra uma reunião pra confirmar o apoio à proposta e também orientou as confederações nacionais filiadas à CAF para que estudem o projeto e participem da consulta conduzida pela FIFA.
A UEFA, todavia, dada a recusa à proposta, ganhou apoios importantes caso Infantino mantenha sua ideia estapafúrdia de pé. Espanha e Portugal abririam mão de ser sedes da Copa de 2030 (mesmo com o número de participantes aumentado para 64, inchando ainda mais a competição), o que deu brecha para que Infantino afirmasse que tal Copa seria “(…) a mais bonita da história porque será realizada no país mais bonito do mundo: Marrocos”. Onde estava esse infeliz quando a Copa de 2014 foi aqui no Brasil?
A Concacaf, por unanimidade, também rechaçou a ideia imbecil de Infantino, alegando que “(…) o futebol deve ser guiado por transparência, boa governança e desenvolvimento do esporte (…)”. E a AFC (Asian Football Confederation), que representa o futebol asiático (e o da Austrália desde 2007), também por meio de um comunicado, expressou solidariedade à UEFA e à Concacaf e também se recusou a aceitar a ideia de Infantino.
Ou seja, levando-se em conta tudo isso, das 211 confederações nacionais filiadas à FIFA, Gianni Infantino perdeu o apoio público de 136, restando 64 votos já confirmados a seu favor: os 54 da CAF (sendo que é impossível que alguma confederação filiada à CAF recuse a proposta) e, pendente de confirmação, os 10 da CONMEBOL, vide que todas as confederações filiadas à organização presidida por Alejandro Domínguez são subservientes a este.
Aliás, foi Alejandro Domínguez quem vazou a informação de que a Copa de 2030 terá, de fato, 64 seleções, fato que foi semiconfirmado pela FIFA, que ainda está estudando a possibilidade disto acontecer. Dito isto, não vai importar muito de que lado as 10 confederações afiliadas à OFC, da Oceania, ficarão: se apoiarem a proposta, se unirão ao choro dos perdedores, que lucrarão R$ 10 bilhões caso Infantino não seja afastado da presidência da FIFA a tempo; se recusarem a proposta, farão parte da festa da maioria mesmo perdendo 75% do financiamento novo da FIFA.
É certo que Infantino, nascido na cidade suíça de Briga (o que explica muita coisa) com raízes na região italiana da Calábria (o que explica mais coisas ainda), já perdeu não apenas a maioria dos votos, perdeu também o braço-direito, o assessor Carlos Cordeiro, que renunciou também por discordar da proposta do sócio, a qual considerou “prejudicial” para o futebol. Com tudo isto na mesa, pode-se afirmar, categoricamente, Gianni Infantino está com sua careca a prêmio. Resta saber quanto a Betano lucrará com ela.
Gianni perdeu o apoio de federações e confederações, pode perder dinheiro, perder o cargo, já perdeu os cabelos… e Carlos.
